Princípios básicos da anestesia geral
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Anestesia geral (AG) é uma condição controlada e reversível que resulta em perda de consciência, amnésia, analgesia, relaxamento ou imobilização muscular e redução das reações autonômicas adversas à estimulação dolorosa. Esse estado é induzido com o objetivo de realizar procedimentos cirúrgicos e outros procedimentos intervencionistas, mantendo a homeostase fisiológica.

Avaliação pré-anestésica
Antes da anestesia, todos os pacientes são submetidos a uma avaliação do estado de saúde, de potenciais riscos perioperatórios e do nível de preparação para o procedimento.
A avaliação de risco perioperatório ajuda a identificar pacientes vulneráveis com antecedência, otimizar a condição dos pacientes, determinar o plano anestésico (monitorização necessária, estratégia de infusão, cuidados pós-operatórios), orientar o paciente, discutir os riscos esperados e obter o consentimento informado.
O sistema de classificação de estado físico ASA é amplamente utilizado na prática clínica como um indicador básico da gravidade do paciente, assim como as escalas a seguir: ACS NSQIP Surgical Risk Calculator para pacientes cirúrgicos não cardíacos, o RCRI para avaliação de complicações cardiovasculares e outros.
As principais etapas da anestesia geral
A anestesia geral moderna inclui três etapas:
- Indução;
- Manutenção da anestesia;
- Despertar.
1. Indução
Essa etapa consiste em induzir a inconsciência do paciente, administrando uma concentração adequada de anestésico e, em seguida, mantendo a anestesia. A indução da anestesia é a etapa mais vulnerável, quando o paciente em questão de minutos passa de reflexos protetores preservados para apneia e potencial hipotensão.
A segurança é garantida pela preparação prévia:
- Avaliação de paciente/procedimento/consentimento;
- Verificação do aparelho de anestesia e da disponibilidade de materiais e medicamentos necessários;
- Preparação para perda de sangue esperada e disponibilidade de hemoderivados;
- Avaliação das vias aéreas e do risco cirúrgico.
Principais agentes de indução
A indução pode ser feita por via intravenosa ou por via inalatória, dependendo da situação clínica ou da idade do paciente. Em pacientes adultos, a indução intravenosa é preferencial e inclui um hipnótico (propofol, etomidato, cetamina), um adjuvante (opioide e/ou benzodiazepínico) e um relaxante muscular, caso a intubação esteja planejada.
A anestesia inalatória é frequentemente adicionada como um componente complementar da indução anestésica após alcançar a perda primária de consciência com hipnóticos intravenosos ou como única opção.
Proteção das vias aéreas
O gerenciamento das vias aéreas (VA) é parte integrante da anestesia geral, garantindo a ventilação e oxigenoterapia adequadas e, além disso, a administração de gáses anestésicos.
Dispositivos para o gerenciamento das vias aéreas:
- Máscara facial: é utilizada durante a indução antes que outros dispositivos sejam colocados, bem como durante a anestesia para procedimentos curtos que não exigem relaxamento muscular.
- Dispositivos supraglóticos (máscara laríngea): é inserida na orofaringe, sendo em seguida colocada acima da laringe. Ela ser usada como principal dispositivo para respiração espontânea ou ventilação controlada, no entanto, sem oferecer uma proteção completa contra a aspiração. Também podem ser usados como conduto para intubação ou em pacientes com vias aéreas difíceis.
- Tubo endotraqueal: é colocado por meio da laringoscopia direta com a extremidade distal na traqueia Ele é utilizado em pacientes com risco de aspiração, em procedimentos prolongados ou quando há necessidade de relaxamento muscular. Dor de garganta pós-operatória é o efeito colateral mais comum da intubação endotraqueal.
Situações específicas: incluem alto risco de aspiração (requerendo a SRI) e vias aéreas difíceis.
2. Manutenção da anestesia
O principal objetivo desta fase é manter a anestesia cirúrgica de estágio 3 em uma profundidade segura, especialmente em pacientes idosos e naqueles com comorbidades significativas. Isso inclui os seguintes aspectos:
- Manutenção da homeostase fisiológica: a estabilidade hemodinâmica, manutenção da ventilação e oxigenação e controle da temperatura.
- Prevenção do despertar intraoperatório.
- Proporcionamento de analgesia suficiente.
- Relaxamento muscular: para facilitar o procedimento cirúrgico ou prevenir movimentos, se necessário.
A manutenção da anestesia pode ser alcançada principalmente pelos métodos inalatórios ou principalmente pelas técnicas intravenosasO anestésico ideal deve ter:
- Início de ação rápido;
- Efeitos cardiopulmonares mínimos;
- Eliminação rápida do fluxo sanguíneo.
Nenhum anestésico existente é ideal para todos os pacientes; todos os medicamentos anestésicos têm potenciais efeitos colaterais.
Então, os métodos de manutenção da anestesia podem incluir apenas o uso de anestésicos inalatórios isoladamente, o uso da anestesia intravenosa total ou uma combinação de um ou mais agentes inalatórios com diversos sedativos e analgésicos intravenosos (opioides e não opioides), com ou sem o uso de relaxante muscular.
Anestésicos inalatórios
Provocam a perda de consciência, mas também possuem outras propriedades, incluindo a analgesia (óxido nitroso) e o relaxamento muscular (isoflurano). Todos os anestésicos são gases liquefeitos sob pressão ou líquidos voláteis. A potência dos anestésicos inalatórios é medida pelo valor da CAM, que significa a concentração alveolar mínima do fármaco que impede uma reação a um estímulo cirúrgico em 50% dos pacientes a uma pressão de 1 atm.
Anestésicos inalatórios:
- Voláteis (sevoflurano, desflurano, isoflurano e, em alguns países, halotano): podem ser utilizados como agentes isolados para a manutenção da anestesia geral;
- Óxido nitroso: um adjuvante durante a manutenção da anestesia geral.
Vantagens da anestesia inalatória:
- Um controle fácil e rápido da profundidade anestésica (determinação da concentração do anestésico ao final da expiração) e a capacidade de controlar a concentração necessária do anestésico.
- Redução do tônus muscular dependente da dose, permitindo minimizar a dosagem de relaxantes musculares.
- Despertar de forma previsível e rápida.
- Econômico em determinadas condições
Desvantagens da anestesia inalatória:
- Depressão respiratória e hemodinâmica dependente da dose.
- Aumento de risco de náusea e vômito no pós-operatório.
- Potencial agente causador da hipertermia maligna.
Anestésicos intravenosos
Trata-se de medicamentos que, quando administrados em doses adequadas, causam perda súbita da consciência (na maioria das vezes, a indução é alcançada após um período de circulação “mão-cérebro”). O método de manutenção da anestesia geral exclusivamente por via intravenosa é chamado de anestesia intravenosa total (TIVA).
As doses de infusão de anestésicos intravenosos são ajustadas com base na idade, no IMC, na fragilidade e nas comorbidades. Quando anestésicos intravenosos de diferentes classes são combinados, ocorre o sinergismo (redução da dose de cada agente).
Componentes essenciais da anestesia intravenosa:
- Anestésico sedativo hipnótico: na maioria das vezes, é o propofol;
- Componente analgésico: na maioria das vezes, são os opioides: remifentanil, fentanil, sufentanil, hidromorfona, morfina;
- Adjuvantes: podem ser utilizados para reduzir ou substituir o propofol como hipnótico ou o opioide como componente analgésico. Eles incluem os benzodiazepínicos (midazolam, remimazolam), os agonistas alfa-2 (dexmedetomidina), os anestésicos locais (lidocaína) e outros.
Vantagens da TIVA como método de manutenção da anestesia:
- Uma ótima opção quando a técnica inalatória é indesejável/impossível (intervenções nas vias aéreas, transporte).
- Não é um agente causador da hipertermia maligna.
- Menor risco de náusea e vômito no pós-operatório (NVPO).
- Aspecto ambiental (menor impacto ambiental em comparação com a anestesia inalatória).
Desvantagens da TIVA:
- Não permite controlar a concentração final no sangue e, consequentemente, controlar a profundidade da anestesia.
- Existe o risco de despertar involuntário caso o medicamento não seja administrado, o que exige maiores requisitos de segurança para o sistema de infusão e a monitorização por EEG.
- Depressão respiratória e hemodinâmica dose-dependente, semelhante à observada com agentes inalatórios.
Relaxantes musculares
Os relaxantes musculares, ou bloqueadores neuromusculares (BNMs), são divididos em duas classes com base em seu mecanismo de ação:
- Despolarizantes (succinilcolina).
- Não despolarizantes: têm início de ação mais lento e duração de ação mais longa. Os relaxantes musculares não despolarizantes são classificados segundo a duração de ação: de longa duração (pancurônio), de duração intermediária (vecurônio, rocurônio, atracúrio, cisatracúrio) e de curta duração (mivacúrio).
A escolha de um BNM específico baseia-se na duração prevista do procedimento cirúrgico e na presença de disfunção renal ou hepática grave.
Vantagens do BNM:
- Otimização das condições cirúrgicas (relaxamento muscular no campo cirúrgico, por exemplo, leva à redução da pressão durante a laparoscopia).
- Redução do número total de doses de anestésicos e facilitação da sincronização com o ventilador pulmonar.
Desvantagens e riscos dos BNMs:
- O bloqueio neuromuscular residual é um fator de risco significativo para morbidade e mortalidade associadas à anestesia; por este motivo, é recomendada a monitorização quantitativa — TOF.
- Anafilaxia (os BNMs estão entre as causas mais comuns de anafilaxia perioperatória).
- O relaxante muscular despolarizante succinilcolina é um agente causador da hipertermia maligna.
3. Despertar
Um retorno gradual da consciência após a suspensão do anestésico e dos adjuvantes ao final do procedimento, resultando em uma transição suave da anestesia cirúrgica para a vigília.
Principais objetivos dessa etapa:
- Suspender/reduzir a administração dos anestésicos, mantendo a analgesia adequada.
- Restaurar a respiração espontânea e os reflexos protetores.
- Remover o relaxamento muscular residual antes da extubação; reverter o bloqueio muscular (neostigmina, sugammadex).
- Prevenção e tratamento de NVPO.
- Capacidade de manejar certas complicações quando um paciente desperta da anestesia geral, como hipertensão, taquicardia, tremores, problemas respiratórios (laringoespasmo, broncoespasmo) e agitação grave.
- Transporte da sala de cirurgia para a sala de recuperação pós-anestésica para cuidados adicionais.
Monitorização em anestesia geral
A monitorização é um componente básico e obrigatório da anestesia geral. O médico anestesiologista deve controlar não apenas as variáveis fisiológicas do paciente mas também o equipamento de anestesia, visto que a anestesia e a cirurgia podem causar alterações rápidas nos sinais vitais.

Monitorização básica
- Oxímetro de pulso.
- Eletrocardiograma (ECG).
- Medição não invasiva da pressão arterial.
- Termometria.
- Capnografia (EtCO2)
- Alertas sobre uma baixa concentração de oxigênio e a interrupção da ventilação.
- Monitorização quantitativa do volume da mistura gasosa expirado.
Monitorização avançada
- Pressão arterial invasiva (linha arterial): é necessária em casos de alto risco de instabilidade hemodinâmica, em cirurgias complexas de grande porte, em flutuações rápidas esperadas da pressão arterial, quando é necessário coletar gases e em titulação precisa de medicamentos vasoativos.
- Monitorização neuromuscular quantitativo (TOF/TOFR, eletromiografia, aceleromiografia): é indicada em pacientes recebendo BNMs para dosagem e confirmação de recuperação; o alvo antes da extubação é TOF≥ 0,9.
- Monitorização da profundidade da anestesia utilizando o EEG processado (BIS): é preferível ao utilizar a TIVA.
- Presença de um cateter venoso central e monitorização da pressão venosa central (PVC): acesso periférico inadequado, necessidade de infusão/transfusão rápida, componente da avaliação da sobrecarga de volume.
- Monitorização hemodinâmica avançada (ECG transesofágico, cateterismo da artéria pulmonar — cateter de Swan-Ganz e outros): é necessário em pacientes com alto risco de complicações, em cirurgia cardíaca e em cirurgias de alto risco.
- Monitorização contínua da temperatura: cirurgias longas, necessidade de reaquecimento ativo ou risco de hipotermia.
Cuidados pós-operatórios
A maioria dos pacientes é transportada para a sala de recuperação pós-anestésica para garantir o tratamento oportuno dos efeitos colaterais pós-operatórios. Pacientes em estado crítico, conscientes ou intubados são transportados para a unidade de terapia intensiva para o tratamento adicional.
FAQ
1. O que é a anestesia geral e como ela afeta o corpo?
2. Qual a diferença entre a anestesia local e a anestesia geral?
3. Quais são os riscos da anestesia geral na medicina moderna?
4. Anestesia geral e narcose são a mesma coisa?
5. Quais medicamentos são usados na anestesia geral?
6. Quais são as possíveis consequências após a recuperação da anestesia?
Referências
1.
VOKA 3D Anatomy & Pathology – Complete Anatomy and Pathology 3D Atlas (Atlas 3D completo de anatomia e patologia) [Internet]. VOKA 3D Anatomy & Pathology.
Disponível em: https://catalog.voka.io/
2.
Nimmo, A.F., Absalom, A.R., Bagshaw, O. (2019). Guidelines for the safe practice of total intravenous anaesthesia (TIVA): Joint Guidelines from the Association of Anaesthetists and the Society for Intravenous Anaesthesia. 74(2):211-224. doi: 10.1111/anae.14428.
3.
Khorsand, S.M. Maintenance of general anesthesia [Internet]. In: Post TW, editor. UpToDate [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2025 [updated 2025 Mar 5; cited 2025 Dec].
4.
Saugel, B., Buhre, W., Chew, M.S. (2025). Intra-operative haemodynamic monitoring and management of adults having noncardiac surgery. European Journal of Anaesthesiology 42(6):p 543-556, DOI: 10.1097/EJA.0000000000002174.
5.
Ludovico, F., Pietro, Di F., Patrick, Del M. (2024). Anesthetic gases environmental impact, anesthesiologists’ awareness, and improvement opportunities: a monocentric observational study. Journal of Anesthesia, Analgesia and Critical Care 4:47. doi: 10.1186/s44158-024-00183-1.

